Provavelmente, essa é uma das perguntas que mais escutei ao longo desses dez anos que atuo na prática clínica. A resposta não é tão simplista como parece. Vamos aos fatos!

Se você é um paciente saudável, não apresenta doenças e deseja um plano alimentar, o mais indicado é que recorra ao nutricionista. Este é o profissional mais adequado para atender às suas necessidades.

No entanto, caso você apresente qualquer sintoma ou seja portador de alguma doença específica, é necessário que consulte primeiro um nutrólogo e, posteriormente, vá ao nutricionista para receber um plano alimentar. O nutrólogo pode sim arquitetar o seu plano alimentar, contudo o nutricionista é o mais indicado para essa tarefa.

 

Quais as diferenças entre o nutrólogo e o nutricionista?

  • A graduação:

O nutrólogo é formado em medicina e o nutricionista em nutrição. São graduações diferentes, que acompanham também durações diferentes. Se pressupormos o tempo de estudo, o nutricionista é, sem dúvidas, o profissional mais habilitado para a prescrição de dieta e orientações nutricionais. Por outro lado, o nutrólogo é o médico mais habilitado para fazer o diagnóstico, além de orientar sobre a fisiopatologia, prognóstico e como ocorre o tratamento das doenças nutricionais.

  • As áreas de atuação:

A nutrologia é uma das especialidades dentro da medicina. Dividindo-se em duas sub-especialidades reconhecidas pelo Conselho Federal de Medicina (CFM): nutrologia pediátrica e nutrologia parenteral e enteral.

Enquanto que o nutricionista é um profissional com formação generalista, humanista e crítica. Dessa forma, é capacitado para atuar visando à segurança alimentar e à atenção dietética em todas as áreas do conhecimento em que a alimentação e a nutrição se apresentem fundamentais. Sua atuação visa a promoção, manutenção e recuperação da saúde através da nutrição. Além disso, é parte essencial no processo de prevenção de doenças, seja em um nível coletivo ou individual.

  • A caracterização do diagnóstico:

Legalmente, o nutricionista fica restrito ao diagnóstico nutricional, enquanto o médico ao diagnóstico da doença propriamente dita e da instituição da terapêutica. Assim sendo, o nutricionista não dá diagnóstico de doença. Quem determina se o tratamento da doença será apenas dietético, terá intervenção medicamentosa ou cirúrgica é o nutrólogo.

  • Solicitação de exames:

Ambos os profissionais podem solicitar exames laboratoriais para elucidação diagnóstica. No entanto, o nutricionista não pode solicitar exames de imagem, eletrocardiograma, teste ergométrico, monitorização ambulatorial da pressão arterial, holter, exames laboratoriais que necessitem de monitoração médica durante a realização e polissonografia.

Contudo, os nutricionistas possuem competência legal para solicitar exames laboratoriais. Eles podem solicitar os exames necessários ao diagnóstico nutricional, à prescrição dietética e ao acompanhamento da evolução nutricional. Mas, a solicitação de exames por parte dos nutricionistas é limitada aos aspectos nutricionais, para o médico, ela é abrangente.

  • Arsenal terapêutico:

O nutricionista tem como arsenal terapêutico:

– As orientações nutricionais com educação em saúde, muito importante na prevenção de doenças;

– Plano dietético;

– Prescrição de suplementos orais desde que respeitem as doses estabelecidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).

– Prescrição de plantas medicinais, medicamentos vegetais e fitoterápicos;

O médico nutrólogo tem além do arsenal citado acima:

  • Prescrição de suplementos em doses mais altas ou exclusivos para prescrição médica;

– Prescrição de vitaminas, minerais e ácidos graxos em doses medicamentosas, que muitas vezes excedem as doses estabelecidas pela ANVISA;

– Prescrição dos medicamentos: antibióticos, antiinflamatórios, analgésicos, antitérmicos, corticóides, hipoglicemiantes, antihipertensivos, antiarrítmicos, antiulcerosos, psicotrópicos, medicações endovenosas, intramusculares, nasais ou tópicas;

– Prescrição de fitoterápicos que necessitem de receita médica.

– A prescrição de dietas:

Essa é a diferença mais polêmica! O nutrólogo trata das doenças ligadas à ingestão alimentar. Assim, o diagnóstico dessas doenças deve ser feito por médicos e tratadas por médicos. Só depois de um diagnóstico, o médico encaminhará o paciente ao nutricionista para solicitar o acompanhamento nutricional. É importante salientar que o paciente é livre para ir em quem quiser, entretanto o diagnóstico deve ser firmado antes.

Um bom nutrólogo diagnostica e encaminha para o nutricionista montar o cardápio. É dessa forma que eu trabalho em meu consultório e tenho obtido resultados satisfatórios.

Segundo parecer jurídico do Conselho Federal de Medicina (CFM), o médico está habilitado a prescrever dietas apenas em casos de doenças. Ou seja, quando envolve estética, é vetado a ele. O Conselho Federal de Nutrição (CFN) não entende dessa forma e defende que a prescrição de dieta via oral seja atividade privativa da nutrição, conforme a lei federal que regulamenta a profissão, alegando que uma resolução não pode transpor uma lei federal.

Essa discussão ainda não teve fim. Médicos vinham fazendo isso nos últimos 150 anos e a nutrição surgiu, assim, como a fisioterapia, com a função de auxiliar a medicina e hoje caminha com as próprias pernas. Tornou-se uma grande ciência e que, quando bem praticada, pode mudar a vida dos pacientes, seja curando ou mudando o prognóstico de doenças.

 

Uma nova perspectiva sobre a obesidade e suas reverberações.

Entre os dias 4 e 7 de junho de 2020 aconteceu o “The Blackburn Course in Obesity Medicine” da Harvard Medical School. O evento é considerado um dos principais eventos mundiais de atualização sobre o tratamento da obesidade.

O curso, inicialmente marcado para acontecer na Faculdade de Harvard,  este ano, diante da pandemia mundial do COVID-19, necessitou ser alterado para o formato remoto, através de sessões ao vivo.

Foram 4 dias intensos, onde a obesidade foi abordada de maneira séria, como merece. Afinal, ela é a doença crônica mais relacionada com mortes ditas evitáveis.

Os professores da Faculdade de Medicina de Harvard e convidados debateram durante 40 horas em 4 dias. Entre os temas, abordamos a epidemiologia, mostrando que mesmo com todas as medidas para controle da doença, o que observamos é um aumento mundial no número de obesos.

Falamos também sobre o grande aumento de casos em paciente cada vez mais novos e em como lidar com a obesidade infantil. Dessa forma, tivemos uma visão em 360 graus, vendo como o problema está relacionado com áreas como: nutrição, cirurgia, endocrinologia, gastroenterologia e saúde mental.

As aulas correlacionaram a obesidade e sua relação com: meditação, ritmo circadiano (a importância do sono),  genética, diabetes, cardiopatias, esteatose hepática (gordura no fígado), enfim, de praticamente tudo relacionado com obesidade.

Conversamos também sobre as novidades relacionadas ao desenvolvimento da doença e sobre as dificuldades no tratamento. Um dos pontos mais debatidos foi o porquê cada paciente responde de uma maneira ao tratamento. Assim, estudamos a necessidade de seguir os seguintes cuidados:

  • Avaliação abrangente do paciente;
  • Gerenciamento médico do paciente com obesidade;
  • Atenção aos distúrbios metabólicos;
  • Acompanhamento otimizado após cirurgia bariátrica;
  • Técnicas eficazes de aconselhamento e motivação para que ele possa lidar melhor com os problemas pessoais causados pela obesidade;
  • Estratégias e terapias emergentes para a obesidade genética;
  • Compreensão de como a dieta influencia os processos metabólicos.

Pensando em tratamento, além do tratamento medicamentoso, endoscópico e cirúrgico, muita atenção foi dada ao tratamento envolvendo a mudança dos hábitos de vida, que envolvem uma alimentação saudável, prática de atividade física, manejo do stress, higiene do sono, entre outros.

Aos poucos irei falar sobre alguns desses temas com você. Acompanhe!

 

A dificuldade em diagnosticar torna a convivência com os sintomas muito difícil para o paciente. No entanto, apesar de não haver cura, é possível tratar!

A doença celíaca, também chamada de intolerância ao glúten, atinge cerca de 1% da população mundial segundo a Organização Mundial da Saúde. O número pode parecer baixo, mas a dificuldade em diagnosticar pode contribuir para ele.

Essa é uma doença que costuma ser originada pela predisposição genética que atinge, principalmente, o intestino, mas possui características sistêmicas e autoimunes que podem atingir outros órgãos. Ou seja, nem sempre os sintomas podem ser vistos externamentes.

Se a doença celíaca fosse um animal, com certeza, ela seria um camaleão. Esse animal é popularmente conhecido pela sua capacidade de auto camuflagem, evitando e confundindo os predadores. O mesmo acontece com a intolerância ao glúten que não possui um padrão de sinais e sintomas, confundindo o seu portador e até profissionais da saúde.

Há tempos atrás, a doença era descrita como um problema gastrointestinal que afetava, em grande maioria, crianças de raça branca com má nutrição. Mas, hoje, sabemos que isso não é verdade e que ela não possui distinção de raça e idade, além de atingir vários órgãos, embora aconteça mais com pessoas que possuem quadro de sobrepeso e obesidade.

Os sintomas podem ser externos, como feridas e sangramentos na pele, como internos, que incluem enxaqueca, dor abdominal, gases, constipação, alterações endócrinas e distúrbios ginecológicos. Isso tudo pode ser acompanhado de diarréia, vômitos, anemias e alterações ósseas.

Assim sendo, o paciente que chega ao consultório com qualquer probabilidade de ser portador da doença celíaca precisa ser recebido com cuidado e atenção. Tudo começa na recepção!

Normalmente, o paciente chega com um histórico frustrante de atendimentos anteriores. A dificuldade em diagnosticar acaba provocando nele ansiedade, por isso o acolhimento é essencial.

Com isso, é necessário três pilares: ouvir, explicar e passar segurança. Ele precisa saber que tem com quem contar e que poderá passar pelo problema conquistando uma vida normal.

Após essa etapa, é necessário uma biópsia de intestino para confirmar o diagnóstico. Esse é o principal órgão a ser atingido, sendo também alvo dos sintomas digestivos e nutricionais.

Como primeira porção do intestino delgado, o duodeno precisa passar pela biópsia em duas porções, sendo a primeira o bulbo e, depois, o segundo segmento. A biópsia precisa ser feita em mais de uma porção porque, caso feita apenas em um único local, pode acontecer o recolhimento do tecido normal e a não identificação da doença.

Após ter certeza do diagnóstico, começa-se o aconselhamento nutricional. Nesta etapa, além da restrição ao glúten, é preciso considerar os perigos da transgressão da dieta e dos efeitos deletérios da contaminação de forma cruzada.

Da mesma maneira que qualquer doença crônica, a doença celíaca precisa ser acompanhada continuamente a fim de controlar os sintomas e alcançar a melhora clínica.

Se você tem alguma dúvida sobre o assunto, deixe o seu comentário abaixo!

Se a automedicação sempre foi um perigo, ela pode ser ainda mais danosa diante da COVID-19.

 

Já é fato constatado, a automedicação é muito perigosa para a saúde e, mesmo isso sendo uma premissa universal, ela não deixa de ser praticada. No Brasil, estima-se que ao menos 77% dos brasileiros possuem esse hábito segundo pesquisa desenvolvida pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF). A grande preocupação é que esses números comecem a aumentar ainda mais diante da pandemia do novo coronavírus.

Com as várias informações que circulam na Internet e nos veículos tradicionais de comunicação, sabemos que a corrida pela cura não para. Por isso, muitas especulações surgem em meio caos.

De um lado, temos cientistas e pesquisadores correndo contra o tempo para encontrar uma saída. De outro, temos pessoas preocupadas com a sua saúde e daqueles que amam. Nesse sentido, ainda existem muitas pesquisas, contudo, não há nada verdadeiramente concreto.

Ora alguns medicamentos são tidos como salvadores da pátria, ora eles são tidos como vilões da saúde. Mas, afinal, o que realmente funciona?

 

Ibuprofeno:

Muito se foi abordado sobre remédios contendo esse princípio ativo e também a respeito dos sintomas em si que seriam agravados pela utilização dele, potencializando ainda mais o quadro do coronavírus. O Ministério da Saúde não ficou de fora dessa questão e também opinou contra o medicamento.

Entretanto, com o passar dos dias, a Organização Mundial da Saúde (OMS) contestou a informação. Segundo a OMS, ainda não temos estudos seguros e conclusivos a respeito do ibuprofeno, por isso, não é possível fornecer informações certeiras sobre o seu uso.

Além do ibuprofeno, os medicamentos que tem como base a hidroxicloroquina ou cloroquina também foram muito falados graças a estudos e até informações vindas de autoridades políticas.

 

Cloroquina:

Esse é um fármaco já utilizado no tratamento da malária e em pacientes portadores de doenças autoimunes, como o lúpus. Existem alguns estudos em andamento a respeito da droga, incluindo especulações de que ela consegue ser benéfica no caso da covid-19.

No entanto, remédios à base de cloroquina podem ser causadores de arritmias cardíacas, pancreatite, hepatite e problemas na retina. Ou seja, ela não é isenta de riscos!

 

Como proceder?

Diante desta mais nova doença, todo tipo de medicamento pode apresentar risco. Se a automedicação nunca foi aconselhada, agora, ela é menos ainda! Esta é uma etapa nova de conhecimento para a saúde, então, não vale a pena arriscar, já que, se você possui alguma predisposição, seu caso pode ser agravado com a medicação sem orientação médica.

O ideal é seguir as orientações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial da Saúde. Lave bem as mãos com água e sabão, use álcool em gel, saia apenas com máscara e fique em isolamento social o máximo possível.

Se ainda assim os sintomas do coronavírus aparecerem, busque uma unidade de saúde próxima a sua casa e faça o teste. Caso seja constatado positivo para a doença, o profissional da saúde lhe conduzirá ao tratamento considerando os seus sintomas.

Cuide-se!

Seja muito bem-vindo!

Se você chegou até aqui é porque, de alguma forma, a saúde é uma coisa importante para você.

Sou médico e, há alguns anos, passei a estar mais presente nas redes sociais. Fiz isso com a intenção de passar informações relacionadas a saúde para ajudar um público maior do que meus pacientes atendidos nas clínicas que atuo.

Aos poucos, através do Instagram, eu passei a postar semanalmente dicas, orientações, trabalhos científicos, responder dúvidas e a interagir. O fato é que o que era um hobby para mim está ajudando muitas pessoas! Recebo, com muita frequência, frases como: “nossa, eu não sabia!”; “fale sobre gestante” ou “o que faço para melhorar o stress?”.

Sou cirurgião e endoscopista de formação, mas, nos últimos 5 anos, tenho me dedicado a medicina preventiva, mais especificamente a nutrologia, especialidade médica que pretendo me tornar especialista nos próximos anos.

Meu intuito com o blog é poder aprofundar em alguns temas importantes, ter um espaço de maior abrangência e também me aproximar dos pacientes. Dessa forma, duas vezes por mês, postarei novidades, dúvidas que recebo, trabalhos científicos e também questões relacionadas ao meu dia a dia, tais quais cursos, aulas ou congressos.

Sinta-se em casa. Comente, compartilhe e dê sugestões! Conto com você, afinal, esse espaço é todo seu.

 

Abraços!